Candle out

Alguns talvez se lembrem de Harrison Ford, como o presidente-durão dos Estados Unidos em Air Force One, que se recusa a negociar com os terroristas que controlam o avião presidencial, onde estavam sua família e boa parte do seu
gabinete. Ele olha no olho o chefe dos bandidos, que exige a libertação de um malévolo general preso em Moscou, e diz “Não! Os Estados Unidos não negociam com terroristas!”

E por aí vai, até que o terrorista segura sua filha e ameaça matá-la. Desesperado, o presidente se rende, faz tudo que exigem, desde que deixem sua filha em paz.

Esse foi o momento em que ele deixou de agir como presidente e passou a agir como pai. Como presidente, sabia que negociar com terroristas é a garantia de que voltarão a atacar e exigir cada vez mais, o que tinha a responsabilidade de evitar. Como pai, nada o impediria de salvar sua filha, a quem tinha a insuperável missão de proteger.

No mundo real não é diferente.

Você pode se opor por princípio a sentenças duras – como a pena de morte –mas se o criminoso violentou sua netinha vai querer dar o tiro você mesmo. Esqueçam-se as razões que o levaram ao crime, a chance de reabilitação dos presos ou o direito que ninguém tem de tirar a vida do outro. Aquele fascínora precisa morrer!

Do mesmo modo, se seu filho fosse o autor de um crime terrível, você não seria pai/mãe se o abandonasse à própria sorte. Vai tentar mitigar as consequências da forma que puder, custear sua defesa e empenhar-se nela. Vai tentar salvá-lo
das consequências do que fez, não porque ele mereça, mas porque amor de pai/mãe é eterno, ilimitado e incondicional. Porque é seu filho e você o perdoará sempre.

Não é possível esperar objetividade, isenção ou defesa do interesse coletivo quando a vítima ou o autor de uma atrocidade é a uma pessoa que você ama. Ninguém é culpado por reagir assim. É natural e compreensível.

Hesitei em emitir uma opinião sobre a execução recente, na Indonésia, do brasileiro Marcos Archer, flagrado transportando 13kg de cocaína. Nunca o encontrei, mas conheço muitos de seus amigos, todos chocados com o triste
acontecimento e com compreensível dificuldade de analisar objetivamente a questão.

Desde 2007, por pressão popular, a rigorosa legislação penal da Indonésia, que pune com a morte o terrorismo, o homicídio e o tráfico de drogas, vem sendo aplicada com rigor. Em 2013 havia 133 pessoas condenadas à morte, 71 por tráfico, 60 por homicídio e 2 por terrorismo.

Abstraindo-se o aspecto moral da pena de morte e mesmo sem considerar o efeito que tais condenações possam ter na redução do comércio de drogas naquele país, a lei está lá e tem sido aplicada com rigor.

Não há como estimar o dano que 13 quilos de cocaína possam causar àqueles que voluntariamente – ao menos no primeiro uso – se valem da droga. Uma pessoa consciente não pode deixar de avaliar que a droga que vai transportar poderá resultar em mortes por overdose e sofrimento para as famílias dos viciados. Um brasileiro não precisa de muita imaginação para pensar em vítimas inocentes na guerra entre traficantes pelos mais rentáveis pontos de venda.

Marcos, evidentemente, havia superado essas considerações.

Mas havia ainda a questão do risco. Nenhuma pessoa que cogitasse em transportar drogas para a Indonésia poderia razoavelmente desconhecer o risco imenso a que estava se expondo. As condenações, execuções e a sistemática desconsideração pelo governo Indonésio de pedidos de clemência, são públicas e notórias.

Infelizmente, Marcos fez as escolhas erradas. Correu o grande risco, colheu o que semeou.

Isso não torna sua pena mais justa e proporcional, nem menos triste o seu fim.

Não se pode esperar dos seus amigos nada além da tristeza e irresignação com o lamentável destino de alguém para eles muito especial. Nossa solidariedade a todos aqueles familiares e amigos abalados por esse trágico desenlace.

Descanse em paz, Curumim!

Foto:  Mario Pinho, “Fantasma II”, Flickr, 5 Oct 2009, Creative Commons (BY).