Shower

Chelyabinsk. Anotem esse nome. Essa pacata localidade da Sibéria foi atingida por um meteoro de 15 metros de diametro e umas 7.000 toneladas causando ferimentos em cerca de 1.000 pessoas, a maioria quando os vidros foram quebrados pela onda sônica gerada pela explosão. Mas Chelyabinsk trouxe consigo algo muito mais poderoso: um novo medo do desconhecido, daqueles que são vantajosamente explorados.

A superfície da Terra é de 510 milhões de quilômetros quadrados, 70% dos quais cobertos de água. A área máxima afetada por um meteoro desse porte corresponde a 0.038% desse total, ou seja, há uma chance em 13.5 bilhões de que algum lugar específico do planeta seja alvo de algo semelhante. Descontados os oceanos, essa chance cai para uma em 45 bilhões. Segundo os cientistas do Natural History Museum, em Londres, a probabilidade de um meteoro de 30-50 metros de diametro (o dobro do de Chelyabinsk, ou mais) cair na Terra é de um a cada mil anos, sendo que o último caiu há 55.000 anos. Acho que não precisamos de mais contas para concluir que esse risco é desprezível e, se comparado aos demais riscos que corremos – como andar de carro – virtualmente desaparece.

Mas se o risco é praticamente nenhum, o medo coletivo pode valer bilhões! Quem lembra do aquecimento global, que fez a fortuna das ONGs – órfãs do medo da guerra nuclear, que passou – que fomentaram o medo das geleiras derretidas (com ursinhos polares equilibrados no último fiapo de gelo) enquanto os oceanos inundariam as cidades? Verdadeiros mercadores da Arca de Nóe que vendiam o CO2 da irisória atividade industrial humana como a causa do fim do mundo… Quantos bilhões transacionados no mercado de créditos de carbono, quantos votos de eleitores assustados, quantas doações às ONGs salvadoras do planeta! Agora, como o ciclo de atividade solar chega ao fim, e com ele o aumento da temperatura, com mais chances dos ursos polares sentirem frio do que calor, a guinada estratégica redirecionou o medo para “mudanças climáticas”, expressão brilhante que atrai qualquer evento natural para as teorias apocalípticas dos beneficários desse pânico artificial.

RockE então?  Meteoros…  Cometas…  Asteróides…  Olha só o potencial disso para gerar um pânicozinho coletivo da melhor qualidade!

Começa, decerto, com mais um filminho. Na longa linha de “The End of the World” (1916), “End of the World” (1931), “When Worlds Collide” (1951), “The Day the Sky Exploded” (1958), “A Fire in the Sky” (1978), “Meteor” (1979), “Asteroid” (1997), “Armageddon” e “Deep Impact” (1998),  “Judgment Day” (1999), “Post Impact” (2004), “Anna’s Storm” e “The Apocalypse” (2007), “Impact” e “Meteor Apocalypse” (2009), “Melancholia” (2011), e mesmo a comédia romântica “Seeking a Friend for the End of the World” (2012), virá sem dúvida por aí, aproveitando o gancho de Chelyabinsk e na melhor tradição do cinema catástrofe, uma nova versão para as telas da aniquilação vinda do espaço.

Em seguida, a imprensa – alimentada por cientistas-de-aluguel – começa a veicular projeções dramáticas das hecatombes provocadas por asteróides e as órbitas recalculadas, concluindo pela inevitabilidade de que – dentre os milhões de planetas espaço a fora – eles virão a bater exatamente aqui. Não já, senão a festa dura pouco, mas em alguns anos. Isso vai ou não vender muito jornal?

Aí, vamos lá: quem está melhor qualificado para produzir os mísseis e foguetes que poderão alterar, na undécima hora, o curso dessas ameaças espaciais, salvando-nos todos? A indústria bélica, talvez?  Quantos bilhões isso vai custar? E a tecnologia para monitorar o espaço e detectar a tempo o perigo? A miséria de alguns vai ter que esperar, a sobrevivência da espécie o exige! Quem vai salvar nossas almas, diante do inevitável juízo final que se avisinha? Qual das igrejas de oportunidade venderá essa salvação? Votaremos em quem não estiver comprometido com a Defesa da Humanidade? Ou em quem não alocar verbas para construção de abrigos por todo o país? Quem vai exigir dos governantes essas verbas e medidas para preservar o planeta? E que, para tanto, arrecadará milhões em doações de gente assustada? Talvez as ONGs do medo ambiental que vai se dissipando? Como será que vão batizar esse medo? Devastação Global? Aniquilação Meteórica? Olha só que nicho espetacular!

Ou então não. O susto passa e eles pensam num medo melhor para nos vender.

Fotos: David Reneke, “Shower”, do blog “David Reneke’s World of Space and Astronomy”, sem indicação de direitos; Amanda Bauer, “951gaspra”, do blog “Astropixie”, sem indicação de direitos.