Nannies

O recente debate deflagrado pela recusa de dois clubes cariocas em admitir – exceto na condição de convidadas – babás não uniformizadas, trás questões subjacentes em nada relacionadas com a sensata determinação dessas entidades, mera política de controle de acesso a instalações de capacidade limitada. No Brasil de hoje, em que relevante parcela da população de baixa renda depende para sua sobrevivência do trabalho doméstico, certos grupos parecem determinados a depreciar esse importante serviço, atribuindo-lhe conotações de inferioridade e denegrindo-lhe as funções.

Mary Poppins2Sucessoras das governantas que nossos pais aprenderam a respeitar e admirar, as babás são investidas de uma responsabilidade difícil de superar. A elas confiamos a guarda daqueles a quem mais amamos: nossos filhos. Mesmo sem o glamour das governantas romanceadas em Mary Poppins e na Noviça Rebelde, inúmeros são os casos de genuína afeição das famílias por essas mulheres, que devotam muitos anos de zelo e carinho aos pequenos que lhes são confiados. Foi com muita emoção que abracei, em meu casamento, a querida babá de cujos cuidados havia desfrutado na infância, que permaneceu ligada à nossa família por toda a vida.

Se poucas missões podem ser tão nobres, com que propósito se empenham tais pessoas em destruir a auto-estima dessas mulheres, descrevendo de maneira tão depreciativa sua profissão? Muitos são os casos de babás – e outros funcionários domésticos – que deixaram o emprego seguro e confortável, a proteção e a generosidade de famílias decentes e responsáveis, somente para perderem a designação profissional de “doméstica”, que alguns insistem em rotular de sub-humana ou degradante. Várias dessas pessoas trabalham hoje, ganhando menos, em funções que requerem menor qualificação, enquanto famílias que lhes poderiam oferecer um emprego responsável, gratificante e honesto, se vêem privadas de sua útil contribuição.

GariO ataque ao uniforme profissional das babás está intimamente ligado à depreciação indevida do serviço doméstico. Uniformes em si são motivo de honra para os que têm orgulho de sua condição. Como são justamente orgulhosos os nossos garis, em seus uniformes prudentemente alaranjados! Como eles, o soldado, a enfermeira, o bombeiro, o guarda-vidas… Quantos, na infância, não sonharam em vestir um dia o uniforme do piloto comercial, a farda das forças especiais ou o macacão de um piloto de provas? O médico deve envergonhar-se do seu jaleco? O cozinheiro do avental e chapéu? O que dizer dos garçons, marinheiros, ou de qualquer funcionário que, literalmente, veste a camisa da sua empresa? Do sacerdote, com sua batina? De meus filhos que, como eu, frequentaram uniformizados a escola?

ChefO funcionário uniformizado preserva suas próprias roupas para uso pessoal e está adequadamente trajado para as funções que desempenha. O uniforme o identifica, distingue, demonstra que pertence a um grupo. O funcionário que tem orgulho do que faz, experimenta a gratificante sensação de ser útil, produtivo e depositário do respeito e confiança de seu empregador.

Não há qualquer razão pela qual o serviço doméstico deva ser considerado humilhante ou inferior. Não estão na roupa que vestimos ou na função que desempenhamos as marcas de nossa estatura como seres humanos. Muitos há – Brasília vem à mente – que desfilam em ternos caríssimos e ocupam posições exaltadas, sem que isso esconda a mediocridade dos seus valores e a inferioridade de suas condutas.

Salve a babá, em seu orgulhoso uniforme, e a família que a ela confia o cuidado de seus pequenos filhos! São válidos os esforços para melhorar as condições de trabalho dos mais humildes, mas chega do proselitismo dos instigadores da insatisfação social.

Fotos: “Norland College” © Adam Gray; “Mary Poppins” © Disney/CML; “Chef”, sem informação sobre direitos; “Renato Sorriso”.  Images from the Internet used under fair use provisions for commentary or criticism of US Trademark Law.