A fumaça escura da descarga de velhas Kombis e caminhões se dissipa por entre frutas e legumes. No ar, o desagradável cheiro de peixe que só desaparecerá em dois dias. No asfalto sujo, ratos alados (asquerosos vetores de moléstias graves, mais conhecidos como pombos) disputam migalhas com cães viralatas, hospedeiros de pulgas e outras coceiras. O lixo onipresente, de frutas passadas, cascas, caroços e folhas murchas, atrai enxames de moscas e baratas. Do gelo derretido, cachoeiras de água de peixe impregnam as calçadas, por entre caixotes quebrados e embrulhos de jornal. Aos gritos monocórdios, das barracas improvisadas, vendedores suados apregoam sua mercadoria, enquanto mendigos prostrados aguardam a xêpa e pivetes disputam as bolsas da clientela.

Se alguém não reconheceu a descrição, trata-se de um dos maiores contrasensos do século XXI, a deplorável “feira livre”.

Toda quarta-feira, esse antro móvel de insalubridade se instala no sopé da rua onde moro, interrompendo por horas o trânsito, obrigando-nos a uma longa volta para acessar a rua principal, atulhando as calçadas. A lavagem que se segue, pelos bravos garis da limpeza urbana, é totalmente ineficaz para anular o fedor que atormentará até sexta moradores e transeuntes. E quarta que vem tem mais…

Longe do charme e frescor dos mercados provençais, as feiras urbanas são um transtorno desnecessário e um risco considerável à saúde pública. Nosso pesadelo semanal fica a 500 metros da Cobal do Humaitá, um mercado coberto, limpo e variado, aberto diariamente, com luz, refrigeração e estacionamento, fiscalizado pela vigilância sanitária com o rigor de que as feiras são poupadas.

Contrariando a lenda sedimentada pela repetição, no que pesem as despesas operacionais inferiores, o custo das mercadorias nas feiras livres é equivalente ou, em casos, superior, às vendidas nos hortomercados próximos. A diferença está na absoluta ausência de higiene e no transtorno à população.

Luta inglória a de quem tenta livrar-se das feiras livres. A liberdade que o nome sugere é toda delas! Ao menor sinal de perigo, acorrem meia dúzia de vereadores e deputados – a quem a sujeira não causa espécie – de olho nos votos dos barraqueiros e daqueles que, por hábito arraigado, arrastam seus carrinhos enferrujados pelo nojento comércio de rua.

Até quando a letargia do Poder Público, que sufoca com tributos e burocracia qualquer empresário organizado, imporá à população essa perigosa e desnecessária porcaria?

Fotos: Aventoe, “Cheiro Livre”, 18 Apr 2012, Creative Commons (BY-NC-SA); Luis Fernando Gallo, “Sujeira da Feira Livre no Belenzinho”, Blog do Milton Jung, Flickr, 26 Nov 2009, Creative Commons (BY); Foto: Juliano Rocha, “Feira Livre – 29 de março”, Flickr, 19 Nov 2006, Creative Commons (BY-NC)