Tem gente que fala, tem gente que grita. Alguns fecham a porta, outros batem. Uns arrumam, outros bagunçam. Há quem só consiga falar de si mesmo, há quem se disponha a ouvir. Sentir-se alegre com as vitórias dos amigos ou roer-se de inveja. Ser gentil ou grosseiro, sobretudo com os mais humildes. Prestigiar ou ignorar quem está por baixo. Agir com responsabilidade ou deixar pra lá. Lutar e crescer ou estacionar e desaparecer.

Numa época de valorização da individualidade e da diversidade cultural, hesitamos em condenar comportamentos inadequados ou mesquinhos, justificando cada atitude (ou falta dela) com base em variáveis como oportunidade, formação, circunstâncias pessoais, falta de exemplo, natureza humana e tantas outras.

Até certo ponto, é inegável que esses fatores externos podem afetar o comportamento e a postura social de cada um de nós.  No cotidiano, porém, nos surgem frequentes exemplos de pessoas que, contrariando todas as probabilidades, superam as desvantagens com que a vida lhes onerou e se transformam em indivíduos extraordinários, do bem, esforçados e produtivos, cujas existências nos surpreendem, impressionam e gratificam, cujo exemplo influencia e modifica vidas.

Terão essas admiráveis pessoas nascido com uma força interior diferente, excepcional, não disponível a quem se arrasta pela vida? Há decerto uma carga genética, a variável da inteligência e aspectos de personalidade que a psicologia ainda engatinha em entender. Mas os exemplos se seguem, de gente simples, de origem miserável, exposta às necessidades e violência, sem uma chance sequer… e que, mesmo assim, constrói uma vida digna, útil e ordeira, constitui família e se responsabiliza por ela, dá do seu melhor e faz diferença.

Qual terá sido o tipping point dessa gente? O que os terá feito acreditar que suas vidas poderiam mudar, que dentro de suas humildes existências haveria espaço para crescer, sonhar e realizar? Uma palavra, um momento ou a chama de uma fé que acendeu um estreito e pedregoso caminho explicarão a perseverança individual, em condições tão desfavoráveis, diante dos imensos desafios da vida? A gente é realmente como a gente é?

Você que fala alto, já tentou baixar a voz? O batedor de portas considerou encostá-las? Se quiser arrumar aquela gaveta (agora mesmo!), você consegue vencer a preguiça e o desleixo? Na sua próxima conversa, poderá ouvir o que lhe dizem, sem ansiar pela brecha que lhe permita falar sobre si? É capaz de sentir-se feliz pelas alegrias de alguém? Custa-lhe ser gentil com quem não pode retrucar? Abraçar o amigo no infortúnio, com o mesmo carinho dos bons tempos?

A gente é, na verdade, quem a gente consegue ser. E para conseguir, é preciso tentar…

Foto: Andrew Chipley, “Man struggles with cart”, Flickr, 6 Mar 2008, Creative Commons (BY-NC-ND)