Existe um certo consenso de que há duas organizações públicas que funcionam bem no Rio de Janeiro, a Comlurb e o Corpo de Bombeiros.  Acrescento à lista, em vista do recente progresso na área da segurança pública, a Polícia Militar, ou pelo menos uma parte dela. No que pese o insucesso que tive na única vez em que precisei recorrer aos bombeiros, já relatado no Blog, cresci admirando os soldados do fogo, que arriscam suas vidas para nos salvar.

Sua missão é fundamental, fazendo-se presentes desde o mais simples atendimento médico nas ruas, passando pelo salvamento de afogados e combate a incêndios, até a localização e resgate das vítimas de acidentes aéreos ou catástrofes naturais. É obrigação do Poder Público certificar-se que estejam disponíveis, treinados, equipados e motivados para desempenhar com eficiência sua indispensável tarefa.

A julgar pelas informações recentemente veiculadas na imprensa, o Governo do Estado do Rio de Janeiro, apesar da elevada arrecadação – inclusive a gerada pela Taxa de Incêndio – tem negligenciado os bombeiros, cuja remuneração é das mais baixas para a atividade no País.

Esse descaso inaceitável resulta em sofrimento para suas famílias e intranquilidade para os profissionais, incompatíveis com o nível de dedicação que deles se espera.

Infelizmente, vigora no Brasil a deplorável noção, oriunda do baixo sindicalismo instalado no País, de que para reivindicar melhorias é necessário atormentar a vida do cidadão. Fonte dos recursos geridos pelo Poder Público mas desprovida de grande ingerência na sua aplicação, vê-se a população submetida a colossais engarrafamentos de trânsito, que lhe retardam injustificadamente o regresso ao lar, porque determinada categoria resolveu marchar pela Avenida Rio Branco na hora do rush. O pleito dos manifestantes pode ser justo, a inconveniência que causa jamais será.

Foi assim que, por diversas vezes, os bombeiros cariocas infernizaram o trânsito do Centro para atrair atenção à sua causa. Não é decerto a melhor forma de assegurar-se do apoio da população.

Como sabe cada candidato antes de ingressar na corporação, ao tornar-se bombeiro estará adotando uma carreira nobre, essencial e militar. A nobreza está no risco que voluntariamente assume em prol da vida da população a que serve. A essencialidade da função lhe retira a faculdade de interromper ou reduzir, por qualquer razão, a prestação do indispensável serviço, cuja falta poderá resultar em mortes. A natureza militar o submete, dentro dos limites da Lei, ao cumprimento de ordens.

Assim, não importa quão desesperada a causa, não pode haver posto de salvamento sem guarda-vidas, caminhão de bombeiros sem guarnição ou ambulância sem médico. Não é opcional, não depende do valor da remuneração ou dos benefícios. Ninguém é obrigado a ser bombeiro mas, enquanto o for, a omissão não é uma alternativa.

A natureza da corporação tem raízes históricas. Em princípio, a função de bombeiro – tal como a de controlador do tráfego aéreo – não depende de uma estrutura militar. No primeiro mundo, bombeiros e controladores, quando não são voluntários, são invariavelmente civis. A limitação de recursos à época da criação dos serviços resultou em que fossem eles literalmente pendurados na estrutura militar. Como se pendurou hoje na Comlurb a poda de árvores na via pública.

A consequência, no entanto, é que numa organização militar o respeito à hierarquia e o cumprimento de ordens, nos limites legais, não estão sujeitos a condicionantes ou circunstâncias.

Assim, ao ocuparem um quartel e recusarem-se a obedecer ordens, 439 bombeiros não se tornaram heróis. Tornaram-se insubordinados, quiçá amotinados. Mesmo em tempo de paz, isso pode bem resultar em expulsão da corporação, ao menos daqueles que se comprove terem agido de livre vontade, deliberadamente. Uma pena!

A população, que depende de bons bombeiros para sua segurança, deve mobilizar-se para que a carreira seja valorizada, dando tranquilidade a profissionais tão indispensáveis e suas famílias.

Os bombeiros, como as outras categorias com legítimas reivindicações, precisam aprender que não será jamais criando inconveniência para a população, negligenciando suas funções ou descumprindo a lei, que irão conquistar o apoio da comunidade.

Fotos: Juliana S., “E no meio do caminho tinha um hidrante“, Flickr, 26 Apr 2007, Creative Commons (BY-NC-SA); Carlos Trindade Conceição, “Bombeiros“, Flickr, 11 Jun 2011, Creative Commons (BY-NC-SA); Christopher Reilly, “Fireman“, Flickr, 1 Mar 2010, Creative Commons (BY) [editada].