Já se foram os tempos em que as conquistas vinham do esforço pessoal, do empenho, da dedicação. Gente com garra e determinação estudava, trabalhava e lutava para progredir, para tornar-se uma pessoa preparada, um profissional competente, digno de reconhecimento e da honrosa designação de “especialista”.

Vivemos hoje a lamentável valorização da mediocridade e da baixaria, que eleva à condição de “celebridade” qualquer grotesca nulidade que entusiasme a entorpecida audiência dos vulgares reality shows da televisão. É o triste nivelamento cultural por baixo.

Pior, no entanto, é a deliberada investidura em autoridade de pessoas despreparadas e com agendas que lhes retiram, no mínimo, a isenção para informar.

São aqueles a quem a imprensa de hoje se refere como “especialistas”.

Poucos são os artigos e reportagens sobre temas de interesse coletivo que não atribuam a um punhado de lobistas da causa sob discussão a condição de especialistas. Assim, sociólogos viram especialistas em segurança pública, ensino, transporte de massa e meio ambiente, assuntos que, no mais das vezes, desconhecem por completo. E que abordam com absoluta parcialidade.

Para a imprensa, o dever de verificar os fatos e colher opiniões abalizadas fica fácil, quando um auto-entitulado “especialista” se apresenta para emitir conceitos, sobretudo se tais conceitos vão de encontro à linha editorial do periódico.

Mas o resultado é perigoso: a informação transmitida aos leitores está viciada pela atribuição de autoridade a pessoa sem efetiva qualificação, que persegue tão somente, a disseminação do que pretende ver percebido como verdade. Pura enganação, travestida de sabedoria.

Como bem dizia meu pai, prova-se hoje com “especialistas” o que antes se provava com “estatísticas”. Ou seja, qualquer coisa…

Já houve época em que a designação de “jurista” pressupunha, ao menos, o respeito à produção intelectual de um advogado por seus pares. Hoje, o mundo está repleto de “juristas” auto-designados, cujo conhecimento jurídico cabe num dedal.

A designação “cineasta”, antes reservada aos grandes diretores, praticamente virou a resposta dos responsáveis por quaisquer filmetes – daqueles cujo conteúdo mais consistente é a lista das 27 empresas que financiaram o que a bilheteria jamais viabilizaria – quando se lhes perguntam a profissão.

O número de auto-entituladas “atrizes, modelos e apresentadoras” dentre as mocinhas que somente aspiram a tais carreiras, só empalidece diante da facilidade com que qualquer jovem atriz – que ainda não disse a que veio – é alçada a “estrela” pelas revistas de foto-fofocas.

É isso. A “mais nova sensação”, a “verdadeira revolução”, o “grande sucesso” do momento, é a absoluta falta de humildade.

Foto: Wamdé, “Shell Gas Specialist”, Flickr, 19 Aug 2010, Creative Commons (BY-SA), editada.