O outro lado do medo é a liberdade. Nos dias atuais, cada vez mais, restringimos nossa liberdade devido ao medo. O lugar deserto e escuro que assustava nossos pais cedeu lugar ao lugar claro e movimentado onde o mal age também. Gente ruim, cuja maldade os antropólogos de plantão tentam atribuir às vítimas – ignorando a legião de miseráveis honestos e a generosa dedicação aos necessitados de tantas vítimas – nos espreita, persegue, acua, ataca…

Só não chegam mais perto, atacam com mais voracidade e tomam o controle total de nossas vidas, porque entre nós e eles há uma linha fina que nos protege, homens mal pagos de azul, que arriscam suas vidas para defender as nossas.

O tédio das longas esperas, na eterna dúvida sobre o retorno ao lar, a incerteza do treinamento longe do ideal, do equipamento inferior, cedem de súbito lugar à urgência de agir, ao risco que se procura calcular, ao medo que se precisa vencer.

Porque é esse o trabalho de quem nos separa dos nossos piores pesadelos. Nada glamuroso, como nos seriados de ação. Chão duro, criminosos sem nada a perder, balas voando. Morte. Famílias desamparadas, quando o pai ou a mãe tombam na linha de frente e não voltam para casa…

Atrás da roupa preta da elite dessa tropa, alguém como eu ou você, com sonhos, esperanças, uma vida pela frente, que precisa achar a coragem para enfrentar aquilo de que preferimos nos esconder.

Gente que sob ataque não solta uma pombinha branca, pratica ao vivo a letra do nosso Hino: não foge à luta.

Empunha a arma que lhe demos e pedimos que use por nós, mas quando mata, é perseguido pelas hordas de especialistas, defensores intransigentes dos direitos humanos daqueles que, sem hesitar, ignoram os nossos.

Quando morrem, é isso mesmo, ossos do ofício… Ninguém se levanta para homenagear os que tombaram em nosso lugar.

Não se venha falar nesse momento dos maus policiais. Há muitos deles, sem dúvida. Descobertos, que a Lei tome seu curso. Mas que não se os presuma culpados até prova em contrário.

É fácil fazer pouco de gente humilde, com pouco estudo, poucas oportunidades, que com recursos limitados tenta fazer um dos trabalhos mais duros da lista: impedir o avanço do mal sobre a população indefesa.

Com todos os seus defeitos e limitações, são anjos da guarda de carne e osso, proteção que não vem de Deus, mas também age para salvar.

As recentes operações em comunidades cariocas, libertadas do jugo cruel do tráfico de drogas, alteraram um pouco a percepção que a população tem de suas forças policiais. Foram cenas inéditas de apoio e admiração que podem gerar uma verdadeira transformação, mesmo naqueles policiais que tem uma visão mais utilitária de sua posição.

Não há nada como o respeito coletivo para criar nos nossos policiais o orgulho em bem servir a comunidade a que pertencem.

Por isso, quando cruzar com um policial, sorria, cumprimente-o. Prestigie alguém como você que escolheu o caminho mais perigoso, para que o seu seja mais seguro. Faça sua parte. É bem mais fácil que a dele.

Fotos: Jônatas Cunha, “O Outro Lado do Medo é a Liberdade” (Editada), Flickr, 23 Dec 2009, Creative Commons (BY-SA); Pēteris, “Polícia Militar do Estado do Rio de Janeiro”, Flickr, 1 Jan 2009, Creative Commons (BY); Victor Hugo Alves, “Batalhão de Operações Especiais da Polícia Militar – BOPE”, Flickr, 7 Sep 2006, Creative Commons (BY-NC-ND); Daniel Garcia Neto, “Forte de Copacabana”, Flickr, 27 Oct 2008, Creative Commons (BY); Daniel Zanini H., “Rio de Janeiro Hot I”, Flickr, 11 Apr 2008, Creative Commons (BY-ND); Jorge Andrade, “Polícia Militar, Rio de Janeiro” (Editada), Flickr, 27 Sep 2010, Creative Commons (BY).