A Copa do Mundo da África do Sul não foi a melhor para nós. A triste campanha dos Maradungas jogou água fria na nossa torcida, mas abreviou nossa aflição e nos permitiu saborear sem ansiedades o talento dos bons times do momento. Mas o pior subproduto dessa Copa foi a invenção, pelos alegres e coloridos anfitriões, da malsinada vuvuzela, o canudo bojudo de fazer barulho que perseguiu todas as transmissões e periga virar insurportável mania onde quer que no futuro se reunam platéias.

Barulho. O que leva o homem a agredir deliberadamente os tímpanos de seu semelhante – e os seus próprios – produzindo e reverberando ondas de intensa agonia? Qual a perversa motivação que nos leva a dilacerar a paz e a tranquilidade, em nome do festivo?

Desde a infância somos encorajados a produzir sons. A natural vontade de ouvir o bebê falar sua primeira palavra cede logo lugar a uma pletora de barulhentos brinquedos, verdadeiro tiro no pé de quem dá e, em seguida, precisa ouvir a jeringonça em ação.

Sim, pois atrás de cada buzina, tambor ou corneta, estalinho e bombinha, com que a petisada inferniza o sossego alheio, há o infeliz do adulto inconsequente que lhe presenteou. Dá para reclamar?

Da produção de sons elevados ao consumo compulsivo de música em alto volume, é um pulo.

O consenso entre especialistas quanto aos danos causados à audição pela exposição sistemática à música em alto volume não parece influenciar a prática, pelo que já se diz que nossos filhos experimentarão perda de audição mais cedo que nossos pais.

Em particular, o uso de headphones, concentrando perigosamente o som no canal auditivo, potencializou o risco de maneira dramática. A proliferação de iPods® e outros gadgets geradores de ruído, cuja propriedade e uso frequente virou importante requisito de integração social da juventude, trás consigo a promessa de sequelas inevitáveis que sequer começamos a contabilizar.

Piores de todos, os pequeninos fones de embutir no ouvido, que aumentam junto com o volume as chances de uma precoce surdez.

Como nos brinquedos, atrás de cada aparelhinho ensurdecedor há um generoso adulto que o adquiriu.

Que agora terá que falar mais alto para ser ouvido…

Há casas em que se conversa, há casas em que se grita. Cada grito gera um grito mais alto, seja em resposta ou em competição, num verdadeiro efeito em cascata que se percebe quando a conversa é retomada, após um breve momento de silêncio, num bar lotado.

A música não tem mais graça se não for executada em volume ensurdecedor.

Toneladas de amplificadores e caixas de som tentam suprir a falta de talento e conduzir a platéia com poderosas ondas sonoras, que sacodem e hipnotizam, a fim de que ela também produza enfim o seu barulho, as palmas e gritos que consagram a performance e fazem do show um sucesso.

Fogos de artifício, explosões eletrônicas, milhares de watts de potência, não há limites para envolver os espectadores.

Quando a música pára, resta um zumbido permanente no interior dos ouvidos, com duração proporcional à exposição ao barulho, uma dolorosa prévia das consequências que o abuso da audição poderá causar.

O espetáculo atingiu uma dimensão nunca vista – e um volume nunca antes experimentado. A poderosa soprano a quem se atribuia a capacidade de quebrar vidraças com uma nota mais alta, já não impressiona mais.

Há ruídos inevitáveis. Parte do conceito de que não se pode fazer o omelete sem quebrar os ovos.

São contudo aqueles contra os quais a coletividade melhor procura se proteger. Com o uso de equipamentos de proteção auricular, compressores silenciados, horários de obra limitados, tenta-se minimizar o impacto do barulho necessário em nosso conforto. Esse empenho aumenta em proporção ao nível de civilização de cada povo.

Mas o embate tecnológico entre a produção e o controle do barulho está longe de ser decidido.

Enquanto o barulho for encarado como divertida manifestação de nossa liberdade de expressão, esse entusiasmo tende a prevalecer sobre a efetiva invasão de privacidade que acarreta.

O começo e o fim da liberdade do indivíduo precisam de urgente definição.

Diariamente passa por minha rua uma velha camionete, cujo alto-falante propaga com voz monocórdia sua disposição de comprar ferro velho, seguida de uma interminável exemplificação dos inservíveis desejados. Já ponderei algumas vezes com os tripulantes, recebendo desculpas automáticas, que só duram até a próxima visita. A pena por quem busca ganhar a vida, pilotando um traste à cata de outros, e talvez a falta de confiança na utilidade da medida, me impediram – até hoje – de acionar o poder público.

Talvez pior, o infeliz fã de pagodes, que impõe aos domingos sua lastimável preferência musical ao aprazível bairro do Humaitá.

Há limite para o barulho?

Na era em que a imposição de limites é tida como antipedagógica, somente pais maduros e determinados têm alguma chance de criar um ambiente em que a comunicação se dá de forma respeitosa. Cada um fala de uma vez, o tom da conversa é cordial e o volume baixo.

Essa não é, infelizmente a regra. Dos diálogos na TV e no cinema, a platéia aprende a conviver com manifestações exaltadas de emoção que, invariavelmente, incluem os exemplos dramáticos de gritaria que serão inexoravelmente reproduzidos no lar.

Onde se somarão aos demais ruídos que contribuem para a elevação das ansiedades e do stress, com todas as consequências já bem conhecidas para nossa saúde e qualidade de vida.

Civilidade, educação e exemplo são as únicas formas de assegurar que – ao menos em nossa pequena área de influência – o som será somente fonte de prazer e comunicação.

Nesse momento, nos preparamos para atravessar com galhardia mais uma tediosa campanha eleitoral, com o bombardeio de barulhentas promessas vazias, irradiadas pelos insuportáveis carros de som e pela propaganda compulsória no rádio e TV.

É barulho oficial, legal e inevitável, com conteúdo invariavelmente deplorável.

E ainda querem o nosso voto.

Que tal pleitear dos candidatos a aplicação – com o mesmo rigor da lei que nos impede de tomar um copo de vinho e dirigir para casa – da menos cumprida de todas as leis: a Lei do Silêncio.

Enquanto isso, bem baixinho, ao pé do ouvido, de boca em boca, vamos combinar que barulho faz mal e que não queremos mais?

Sssshhhh…

Fotos: Coca-Cola South Africa, “Rainbow Blowers”, Flickr, 25 May 2010, Creative Commons (BY-ND); Ernst Vikne, “Making Noise”, Flickr, 30 Jan 2010, Creative Commons (BY-SA); Flattop341, “Headphones”, Flickr, 20 Oct 2007, Creative Commons (BY); Eric/e-magic, “Headphones”, Flickr, 26 Oct 2005, Creative Commons (BY-ND); Matthijs Rouw, “Loud Music Warning Campaign”, Flickr, 18 Feb 2009, Creative Commons (BY-NC-ND); Anirudh Koul, “KISS Concert in Montreal”, Flickr, 13 Jul 2009, Creative Commons (BY-NC); Nick Allen, “Doin’ Work”, Flickr, 15 Jun 2009, Creative Commons (BY); Jørgen Schyberg, “Exhaust Pipes”, Flickr, 14 Nov 2003, Creative Commons (BY-NC-ND); Alan/Kaptain Kobold, “Cei Shouting”, Flickr, 31 Jul 2004, Creative Commons (BY-NC-SA); Luis Villa del Campo, “Silencio!!!”, Flickr, 3 Apr 2008, Creative Commons (BY); Mr T in DC, “Aggressive Dog”, Flickr, 23 May 2010, Creative Commons (BY-ND); Alesa Dam, “Louder than a vuvuzela”, Flickr, 14 Jun 2010, Creative Commons (BY-NC-SA).