Três missas de sétimo dia, recentes rituais de despedida, me fizeram refletir sobre o papel dos amigos.

A primeira, de uma senhora que, alguns meses antes, completara os seus 100 anos. Nossa vizinha por muitos anos, amiga querida de minha mãe, que nos deixou mais cedo, D. Zezé reuniu para sua missa uma linda coleção de filhas, netos e bisnetos. A pequena capela do Colégio Santo Inácio transbordava de gente que presenciou a emoção com que o neto mais velho quase não conseguia expressar seu carinho e gratidão. Nosso papel foi fácil. Lá estávamos para comemorar essa longa e profícua existência. Fazer parte desse grupo de amigos, reencontrar tantos deles após um longo intervalo, foi um privilégio.

Meses depois, voltei ao meu velho Colégio, desta feita na imponente igreja, para dizer adeus ao Dr. João, pai de querida amiga dos tempos da faculdade, que hoje vive em Portugal. Frequentei-lhe muito a casa, onde se reunia nosso grupo de estudos, conheci a família e vários amigos. A missa, celebrada pelo Padre Klein, primeiro orientador que tive no Colégio, foi uma das mais bonitas a que já assisti. Embalado pela belíssima voz da cantora lírica Juliana Sucupira, viajei ao passado e senti saudades. O papel dos amigos era apoiar a família, estar presente e dizer que a existência daquele homem sempre discreto e atencioso tinha nos marcado também. Foi gratificante perceber que se lembravam bem da época em que convivemos.

Esta semana, fui à Igreja de Nossa Senhora do Carmo. Faleceu prematuramente o filho do melhor amigo de meu pai. Ney era um homem corretíssimo, totalmente devotado à mulher e às filhas. Meu pai fora muito próximo da família, a maioria residente no Espírito Santo, mas com o tempo, a distância e a idade, os contatos se foram apagando. Lembro-me de ter convivido com vários deles na infância mas os perdi na roda da vida. Soube do falecimento do Ney pelo jornal, nem sabia que estava doente. Pouco lembrava de sua mulher, as filhas só vi crianças. Tinha na memória a forte ligação entre nossas famílias e o último encontro com ele, na missa de meu pai, há três anos. Fui à missa pensando no que diria a pessoas que foram tão próximas mas que, praticamente, não me conhecem mais.

Consternado pela visível dor da perda precoce, apresentei-me a cada uma delas, falei de meu pai, dos nossos laços antigos. Talvez não tenham, na sua tristeza, sequer registrado minha presença ou o que lhes disse. Tentei desempenhar meu papel de amigo, tardio e distante, mas lamentei a inabilidade de fazer alguma diferença na hora difícil. Me senti o amigo sem papel.

Nossas vidas são corridas e pela estrada se perdem memórias, laços e pessoas. Às vezes é preciso um esforço maior, vencer o cansaço, fazer tempo, se quisermos manter o privilégio de ter um papel a desempenhar nas vidas daqueles a quem queremos bem.

Foto: Brandon Christopher Warren, “Alice in Wonderland: White Rabbit – No Time to Say Hello, Goodbye…”, Flickr, 31 Dec 2009, Creative Commons (BY-NC)