Um papagaio pode imitar os sons da fala humana mas jamais dominará a síntaxe, isto é, os princípios e regras para a construção de frases nas linguagens naturais. Uma criança nasce sem predisposição natural para o aprendizado do idioma de seus pais, absorvendo a língua a que seja exposta durante o crescimento. A produção de sons não é essencial para a comunicação linguística, o que se evidencia das linguagens gestuais. O olhar, as expressões faciais, o andar, a movimentação do corpo, transmitem informações relevantes aos estudiosos da linguagem corporal.

Não há contudo forma de comunicação mais eficaz que a linguagem, falada e escrita, esta última capaz de precisão limitada somente pela habilidade de quem escreve.

Várias teses buscam explicar a multiplicidade de idiomas falados em todo o mundo. A estória bíblica (Genesis, 11:1-9) atribui a Deus a dispersão pelo mundo de ambiciosos construtores da Babilônia que erigiam uma torre que chegaria aos céus, após confundir-lhes o entendimento com a variedade de idiomas. A fascinante teoria de Rousseau (1754, Essay sur l’origine des langues), demonstra que as exclamações mais vivas – até hoje – não são articuladas, e parte da linguagem figurativa, destinada a identificar objetos e indutora de grande proporção do vocabulário, para a descrição das ações e, posteriormente, dos sentimentos. Inúmeros estudos atribuem a pluralidade ao desenvolvimento concomitante e isolado da linguagem em período que precedeu as grandes migrações e explorações.

A dispersão pela terra de povos com as principais origens linguísticas disseminou as estruturas mais desenvolvidas (como o latim e o grego) combinando-as com línguas locais, adaptando-se aos costumes diversos, gerando enfim novos idiomas ou – nas regiões mais próximas – dialetos.

Fascinantes como sejam os estudos linguísticos, recorri a eles somente para demonstrar a característica que tenho por mais importante da língua falada e escrita, que é a sua constante evolução. A língua é viva.

Exemplo claro da permanente adaptação dos idiomas às novas necessidades da comunicação está na incorporação, à maioria da línguas, do vocabulário específico resultante da informática. Assim, poucos desconhecerão o significado de expressões como deletar, blog, web, postar, site ou Internet. Da mesma forma que o vocabulário moderno incorporou esses termos originalmente ingleses, são hoje expressões internacionais pizza, rock, samba, taxi, bikini, virus, hotel, kilo, tango, whisky, e tantas outras, no que pese o nacionalismo unicultural arcaico, encontrado sobretudo entre os que só falam mesmo o português…

O relativo fracasso do Dr. Ludwik Zamenhof (1859-1917) na tentativa de criar um idioma universal, o Esperanto, demonstra a segunda essencial característica das línguas: a liberdade.

Viva e livre, a linguagem se desenvolve em função da necessidade humana. O tradicional Oxford English Dictionary, publicado desde 1888, tem hoje 301.100 verbetes principais, sendo necessárias 59 milhões de palavras para descrevê-los. A descrição do verbo “set”, por exemplo, requereu 60 mil palavras para definir os cerca de 430 sentidos da expressão. O Dicionário Houaiss da Língua Portuguesa traz 228.000 verbetes, ainda que de forma muito mais concisa. Mesmo os mais eruditos autores usam muito poucas dessas palavras, mas o registro respeitoso das formas antigas transporta para a história da língua o fruto de sua evolução.

No Brasil, a burocracia oficial não dá trégua. Desde 1943 já tivemos diversas reformas ortográficas, tentativas do Poder Público de formatar o idioma por decreto. Um pretexto usual é a unificação da grafia entre os países de língua portuguesa, cujo objetivo é… não sei. Americanos escrevem airplane, aluminum, check, disk, labor, honor e pajamas, e os ingleses escrevem aeroplane, aluminium, cheque, disc, labour, honour e pyjamas, e todo mundo se entende.

Adoro o português de Eça, com todas as acções, excepções e génios, e se Florbela Espanca prefere dizer oiro a ouro, que assim seja. Um bom texto sobre a controvérsia, da perspectiva lusa, de Francisco Miguel Valada, aqui.

Com a inevitável atualização dos corretores ortográficos de nossos processadores de textos, a última intrusão governamental na liberdade de escrita tem mais chance de sucesso que o Esperanto. Pessoalmente, no entanto, não tenho a menor intenção de perder tempo com ela. Com exceção do trema, agora suprimido mas que nunca usei, vou continuar escrevendo como achar melhor, mesmo após 2013. Conto com a perseverança dos meus prezados leitores para decifrar meus escritos.

Liberdade!

Fotos: Quadro do pintor flamengo Pieter Brueghel (1525-1569), “Tower of Babel”, Wikimedia Commons, Domínio Público; Shawn Econo, Zine Study XIV: [language]”, Flickr, 14 May 2006, Creative Commons (BY-NC-SA); Tom Bojarczuk, Decreto”, Flickr, 22 May 2009, Creative Commons (BY-NC-SA).