Quem sou eu para falar de futebol? Meu conhecimento do esporte se limita à certeza inabalável de qual é o melhor time, e olha que muita gente boa não partilha dessa certeza. De qualquer modo, o futebol é incidental ao tema deste post, que tem mais a ver com caráter, honestidade e esportividade.

Esporte mais popular do mundo, cujas regras foram codificadas pelos ingleses em 1863, o futebol é hoje um negócio bilionário, que ganhou roupagens de superprodução, cujos times e astros são idolatrados e os embates incitam paixões quase ilimitadas.

Reflexo dos tempos, em que a competitividade – antes exclusiva dos negócios, das guerras e dos amores – transbordou para todas as atividades coletivas, desapareceu dentre nós o que hoje lembramos como “futebol-arte”. Hoje, só importa ganhar. E o preço dessa vitória, em termos morais, perdeu por completo a medida.

“Ganhar na raça” adquiriu outro significado.

A arte do drible, que faz brotar da torcida o grito de “Olé!”, aos poucos dá lugar a novas habilidades, como cavar uma falta ou – marca do verdadeiro talento – um penalti. A coisa é tão escancarada, que é lugar comum abraçar aos sorrisos o jogador caído na área, comemorando o penalti “conseguido” para o time.

A torcida não quer desculpas, quer a vitória. Se a bola entrou e o jogador não fez falta para impedir, sai de campo vaiado. O treinador já instrui o time (e os indiscretos microfones do PFC divulgam): “Só faz falta se não tiver jeito!” “Vai pra cima do Fulano que ele já tem um cartão amarelo!” “Se for entrar derruba!” É tão normal que nem se comenta mais.

Em nome da vitória a qualquer preço, a violência tomou conta do jogo. São carrinhos, caneladas, chutes nos mais variados e dolorosos lugares, puxadas de camisa, pisões e – a última palavra em estratégia de interrupção de jogada perigosa – o abalroamento de costas, seguido de capotagem múltipla que induz o juiz a tratar por vítima o agressor.

A habilidade de escolher o momento em que a visão do juiz e do bandeirinha mais próximo estão obstruídas, o ar de absoluta inocência – quase perplexidade – diante da sugestão de que possa ter cometido uma falta, e as mãos levantadas a dizer “Não fui eu!”, fazem parte do perfil dos craques do século XXI.

Pior: o mundo inteiro fica sabendo e não acontece nada. A Irlanda ficou fora da Copa de 2010 graças a um gol da França feito depois que o jogador Thierry Henry ajeitou a bola duas vezes com a mão! O juiz não viu, mas a TV mostrou ao mundo e… ficou por isso mesmo!

A justificativa para privar o juiz das vantagens da tecnologia, já presente em vários esportes é… não sei. O acesso às imagens, ao replay da jogada, exibido também nos telões, é ferramenta indispensável ao juiz que não pode correr tanto como a bola ou ver através da barreira. A transparência que isso proporciona poupa às torcidas as brigas que a percepção de injustiça invariavelmente provoca.

Por fim, há jogadores que, de tão famosos e ricos, julgam-se acima do bem e do mal e, quando dá vontade, fazem o que querem. Do alto dos seus valiosos passes, confiam que o resultado financeiro que geram para seus dirigentes, empresários, patrocinadores e as emissoras de TV serão suficientes para resolver qualquer confusão.

Tentar administrar a violência do futebol distribuindo indiscriminadamente cartões amarelos e vermelhos é equivalente a tentar organizar o trânsito distribuindo multas. Quando o juiz/guarda não estiver olhando, vão fazer tudo de novo. O que falta, em ambos os casos, é educação. É preciso acabar com a cultura da vantagem a qualquer preço. É preciso voltar ao fair play que caracterizava o esporte antes de virar negócio. É indispensável convencer o torcedor que ganhar na malandragem não tem valor.

Aí, então, poderemos voltar a vibrar com o verdadeiro futebol.

Fotos: Curoninja, “Mugging”, Flickr, 17 Jun 2008, Creative Commons (BY-NC); Khaleel Haidar, “Fight” [editada], Flickr, 15 Oct 2009, Creative Commons (BY-NC); Marco Gomes, “Fez gol? Não, conseguiu um penalti…”, Flickr, 2 Aug 2009, Creative Commons (BY-NC-SA); Ufopilot, “Rothesay Brandane v Johnstone Burgh”, Flickr, 19 Jul 2008, Creative Commons (BY-NC); Shay, “Thierry Henry”, Wikimedia Commons, 22 Aug 2008, Creative Commons (BY-SA); Premasagar, “Zinedine Zidane & the Yoga of Ethics”, Flickr, 11 Jul 2006, Creative Commons (BY-SA).