Desde que algum populista inventou que a voz do povo é a voz de Deus, a quantidade de tolices a que se atribui o aval divino é imensurável. O provérbio, possivelmente cunhado na República de Roma, mas anterior no mínimo ao início do século VII, é a prova que a manipulação da opinião pública não é coisa recente.

Sustentava-se que essa manipulação dependia do controle da informação, o que levou tiranos em todo o mundo a limitar às notícias produzidas por seus times de propaganda o acesso de seus subjugados. Era essa a tarefa do Ministério do Esclarecimento e Propaganda, de onde Joseph Goebbels moldava os fatos para respaldar os desvarios de Adolf Hitler. Versões contemporâneas vão da censura eletrônica à Internet na China, à tediosa e patética Voz do Brasil, propaganda governamental compulsória que interrompe de segunda a sexta a música de quem volta do trabalho.

A confusa ambiguidade da percepção, ilustrada na descrição variável do recipiente preenchido pela metade (metade cheio ou metade vazio), considerada nos estudos da psicologia Gestaltista e admiravelmente exposta por Platão na Alegoria da Caverna (República, livro VII), vem sendo explorada intensamente por governos, entidades e outros grupos de poder para assegurar o avanço de suas respectivas agendas.

Curiosamente, o acesso exponencial à informação provocado pela revolução da Internet, ao invés de dificultar a manipulação da opinião pública, tornou possível a disseminação viral de alegações insubstanciadas, citações parciais ou fora de contexto e falsificações deliberadas de fatos, circunstâncias ou acontecimentos históricos, com capacidade de induzir a erro até mesmo pessoas instruídas e formadoras de opinião.

Em síntese: muita informação não significa boa informação, e boa informação não é necessariamente informação relevante.

O mais violento golpe na confiabilidade da percepção é, no entanto, mais recente. Os recursos hoje disponíveis para a manipulação de imagens levaram a um extremo nunca visto o poder manipulativo exercido sobre a informação. Não se pode confiar sequer no que se vê. Do Photoshop® que dissolve a celulite da modelo aos efeitos visuais que justificam guerras, o que estamos vendo pode muito bem não existir.

A foto à direita, por exemplo, não é de um motor à jato a 30.000 pés de altitude, mas de uma simples gota d’água, formando numa torneira, com rotação de 45º. Um CD, ao fundo, dá a tonalidade azul.

A necessidade de formar uma opinião sobre temas que nos afetam está intimamente ligada à nossa busca por segurança e integração aos grupos a que pertencemos ou desejamos pertencer. O grande dilema da atualidade está em como saciar essa necessidade em meio à inesgotável torrente de informações inconfiáveis que nos cerca. Como distinguir entre a versão oficial e as opiniões divergentes, quando todas parecem endossadas por especialistas e apoiadas por publicações e estatísticas. Até que ponto serão as conspirações meras teorias?

O instinto de sobrevivência, a defesa da lucidez e o medo do desconhecido nos fazem então delegar a responsabilidade pela verificação das informações. Entidades ou pessoas que, por qualquer razão, nos impressionaram ou conquistaram nossa admiração, tornam-se referência conclusiva para formatar nosso discurso nas importantes encruzilhadas da percepção.

Jornais, ONGs, representantes de correntes ideológicas, colunistas, filósofos, políticos, artistas, empregadores, pais, filhos, irmãos, amigos, professores, religiosos, terapeutas, comandantes, radialistas, poetas, blogueiros, apresentadores e tantos outros, são investidos de autoridade e passam quase a oráculos das nossas incertezas.

Somente uma educação de qualidade e uma mente inquisitiva e coerente, com uma saudável dose de ceticismo e independência, podem mitigar os percalços na escolha dessas referências. O medo ou a preguiça de pensar e a resignação apática diante da verdade dominante são a garantia de se atravessar a vida sem saber o que realmente aconteceu.

Fotos: Versionz, “Half empty? Half full?”, Flickr, 22 Nov 2006, Creative Commons (BY); Frans Persoon, Jet Engine, Flickr, 4 Sep 2009, Creative Commons (BY-NC-ND); Guercio,Anonima Giornalisti, Flickr, 24 Apr 2008, Creative Commons (BY-NC-ND).