CrackNos jornais de hoje a triste matéria sobre o rapaz drogado que estrangulou uma moça inclui carta em que o pai daquele, deplorando a tragédia e desculpando-se com a família da vítima, expõe a trajetória de seu filho no mundo das drogas, as infrutíferas tentativas de sua família para lidar com o problema, dificultadas por óbices legais (como a exigência de consentimento do paciente para sua internação) e a falta de políticas públicas eficazes para o tratamento dos dependentes químicos.

Pobres famílias, do autor e da vítima, cujas vidas foram profunda e irreparavelmente abaladas pelo surto alucinógeno do rapaz que a moça generosamente tentava ajudar. A ambas, nossa solidariedade e nossas orações.

O lamentável episódio torna oportuno revisitar o tema das propostas de legalização das drogas psicotrópicas, idéia esposada por muita gente séria e, inevitavelmente, pelos consumidores de drogas.

Syringe

O inocente e desinformado liberalismo que leva pessoas idôneas a se manifestarem pela liberação das drogas – também referida como transição do modelo repressor para o de tolerância – deixa de considerar alguns aspectos essenciais.

Do ponto de vista de consumo, ausente a repressão, este só poderá crescer, engrossada a demanda por pessoas que, por respeito à lei ou por medo das consequências penais, ainda não são usuários. E quem já era usuário, terá menos uma poderosa razão para desistir. Logo agora, que começamos a ter algum sucesso na limitação do consumo do álcool e do fumo…

Como nem os defensores da legalização (exceção para a galera da maconha light, que entre um barato e outro acha tudo lindo) sugerem que drogas fazem bem à saúde, não consigo ver como o aumento do consumo terá efeito positivo na saúde pública e nos custos a ela associados.

DrugsQuem rouba ou furta para sustentar o vício vai continuar a fazê-lo. Afinal, ninguém está sugerindo a distribuição gratuita. O vendedor autorizado (seja a DrogaBrás ou o amigo do rei que for agraciado com mais esse cartório) tratará sua atividade como negócio. Não esqueçamos que sobre a droga ilegal não incidem impostos. Não irá o Estado, que não perde uma chance, tributar drogas legais como faz com os demais supérfluos? Ou irá considerá-las gênero de primeira necessidade? Sustentar a dependência ficará mais caro, o viciado terá que correr atrás do dinheiro…

PusherE os traficantes, cujo poderio é tido como justificativa principal para a legalização? Espera-se que desistam de uma vida de crimes e engrossem as filas do concurso para garis? Ou vai rolar um bolsa-traficante para a galera viver sossegada? Acostumados ao lucro fácil, sem hesitação em recorrer à violência, avessos ao trabalho e inconfortáveis no meio de gente honesta e esforçada (como os nossos garis), migrarão inevitavelmente para outra atividade criminosa. Sequestros, assaltos, extorsão, contrabando e venda de drogas sem imposto, a exploração de qualquer outra coisa ilegal… Ou será que legalizarão todas?

Há hoje três principais grupos que sofrem com a violência do tráfico de drogas.

Em primeiro lugar, os usuários, que morrem do consumo ou nas tentativas de financiá-lo. Como overdose de droga legal mata do mesmo jeito e vão correr ainda mais riscos para comprar a droga com o novo imposto, vão continuar morrendo. Com o inevitável aumento do consumo, serão mais mortes.

O segundo grupo, são as famílias dos usuários (e de suas ocasionais vítimas), que sofrem com o drama dos viciados. Mais viciados, mais sofrimento.

Finalmente, temos os moradores das comunidades em que o tráfico mantém seus estabelecimentos. Além dos riscos decorrentes das disputas entre criminosos pelos pontos comerciais, sofrem com o aliciamento de seus jovens pelas quadrilhas. A eles se contrapõem, em maior número, os moradores das demais áreas da cidade. Se as novas atividades dos criminosos resultarem na saída destes das favelas (que continuarão a ser o melhor esconderijo para o crime) estaremos apenas transferindo esse problema para o grupo maior. E não se resolve o problema de 5 criando um para 50.

Isso é tema para outro post, mas favelização não se resolve com PACs e outros paliativos eleitorais, que perenizam o problema…

It's All In The NameEm síntese, a legalização aumenta o consumo, eleva o custo do produto e a violência associada ao custeio da dependência, agrava a situação de saúde pública e o custo dela decorrente, transfere criminosos para atividades potencialmente mais violentas e expõe a esse risco uma maior parcela da coletividade.

Ser liberal é muito bom (e pega bem com o eleitorado). Mas com responsabilidade, sem tapar o sol com a peneira e varrer a sujeira para baixo do tapete. Queremos realmente facilitar o acesso dos nossos filhos às drogas? E escrevermos, talvez, um dia, uma carta à família de uma vítima? Vamos acabar com a guerra das drogas nos rendendo a elas?

Fala sério!

Fotos: Daniel Marenco, “Crack”, Flickr, 22 May 2009, Creative Commons (BY-NC); Patrick/msigarmy.com, “Syringe”, Flickr, 16 Oct 2008, Creative Commons (BY-NC-ND); Curtis Gregory Perry, “Walgreen’s”, Flickr, 16 Nov 2005, Creative Commons (BY-NC-ND) – Obs.: Image used to illustrate a point, no connection between the sale of illegal drugs and Walgreen’s intended. Imagem utilizada para fins meramente ilustrativos; nenhuma relação entre a comercialização de drogas ilícitas e Walgreen’s sugerida; Hugh Bell/HTB, “Pusher”, Flickr, 1 Feb 2005, Creative Commons (BY-NC); Nosferatu9000, “It’s all in the name”, Flickr, 5 Mar 2009, Creative Commons (BY-NC-SA).