Canadian House

Quem casa quer casa. Quem não casa, também. Das cavernas de ontem à estação espacial de amanhã, do barraco ao castelo, o lugar lugar onde se mora, se vive os momentos privados, convive com a família, recebe os amigos, descansa, ou não se faz nada, o nosso endereço enfim, povoa as ânsias, os sonhos e as batalhas do dia a dia de quase todos nós. Um lugar para chamar de seu, a casa que não é da sogra, o seu canto no mundo.

Em função do clima, da cultura e dos materiais disponíveis, a habitação evoluiu através dos séculos, perseguindo solidez, beleza e conforto. Da infância recebemos lições (como a estória dos três porquinhos) que sedimentam a noção de proteção e aconchego daquilo que chamamos lar.

No Brasil, longe do desastre americano causado por banqueiros gananciosos que lastrearam em hipotecas podres seus fundos de investimento, e com os inúmeros financiamentos disponíveis, mais e mais famílias estão conseguindo realizar o sonho da casa própria.  Mas o que estão comprando?

Building Castles in SpainUma parte do mercado imobiliário nacional, em particular no Rio de Janeiro, parece calcada em duas premissas: propaganda enganosa e uma vergonhosa maximização da margem de lucros das construtoras à custa da qualidade.

A propaganda está no material de vendas que concentra os atrativos nas amenidades oferecidas pelo condomínio ou prédio, abusando das “imagens meramente ilustrativas” que nem sempre correspondem ao que é entregue. Por vezes o prospecto promete, por exemplo, uma sala de jogos e o memorial descritivo e/ou a escritura destina o espaço mas deixa o custo de montagem da sala (compra de móveis e equipamentos, decoração) por conta do condomínio. Vende-se um verdadeiro clube mas entrega-se espaço vazio, cabendo aos condôminos lá instalarem o prometido.

Mas a verdadeira vergonha está nas dimensões diminutas das unidades, na seleção dos materiais empregados e no deplorável acabamento, já encontrado nas obras de algumas das outrora tradicionais grifes da construção civil, hoje sintomaticamente controladas por bancos.

Nail in ConcretePortas de garagem com largura insuficiente, que exigem o rebatimento dos espelhos retrovisores para a entrada de veículos mais largos. Garagens mal construídas e vagas demarcadas em espaços quase inacessíveis, só para atender aos requisitos legais. Paredes e pisos irregulares, chegando ao absurdo de separar apartamentos com paredes de gesso (dry wall)! Instalações elétricas e hidráulicas (e tudo que se esconde dentro das paredes) de baixíssimo padrão. E andares e mais andares, a maior taxa de ocupação possível, em detrimento da qualidade de vida.

É como dizia minha mãe: “Por fora bela viola, por dentro pão bolorento.”

Conheço (ao menos um) construtor carioca que consegue conciliar uma razoável margem de rentabilidade com um padrão de construção e acabamento que não transformam em pesadelo o sonho da casa própria. Logo, isso é possível.

Para reverter o quadro atual, o comprador precisa ser bem assessorado, por profissionais capazes de decifrar a letra miúda dos contratos e o jargão do memorial descritivo. Mas, preferencialmente, a própria indústria da construção civil deve retomar a responsabilidade de entregar imóveis em que pessoas possam viver, e não apenas morar.

Fotos: Marco Tardiola/trinchetto, “Canadian House”, Flickr, 22 Aug 2008, Creative Commons (BY-NC-SA); Esther Gibbons/Bah Humbug, “Building Castles in Spain”, Flickr, 26 Feb 2008, Creative Commons (BY-SA); Ostia/Dirty Bunny, “Nail in Concrete”, Flickr, 22 Mar 2005, Creative Commons (BY-NC-SA).