“Some people’s idea of free speech is that they are free to say what they like but if anyone says anything back, that is an outrage.” (Winston Churchill)

Aung San Suu Kyi

A imagem de Aung San Suu Kyi, voz da liberdade e resistência pacífica em Burma laureada com o prêmio Nobel da Paz em 1991 (em genial fotomosaico do exilado cubano Gilberto Viciedo, usando imagens de borboletas, flores e pássaros) epitomisa um dos valores mais preciosos e ameaçados nos dias atuais. A frase de Churchill nos desperta a triste constatação da relatividade com que a liberdade de expressão é encarada, dependendo de quem fala e quanto nos incomoda o que é dito.

No filme de Rob Reiner The American President (1995, Universal), o amor pela fascinante Annette Bening leva o presidente (Michael Douglas) a proferir um inesquecível discurso em defesa dos direitos civis (no que pesem certas premissas equivocadas, que serão tema de futuros posts).

O teste máximo da liberdade de expressão é a capacidade de defender o direito do nosso maior oponente enunciar em público as razões que nos pareçam mais absurdas em defesa de uma tese que faça nosso sangue ferver. É a tolerância com que o patriota fervoroso reconhece ao cidadão indignado o direito de queimar em protesto a bandeira do seu país. Se os exemplos nos parecem extremos, podemos ser ótimas pessoas mas temos um problema com a liberdade de expressão.

Speaker's CornerUm exemplo pouco comum de respeito e tolerância é visto na tradicional Speakers’ Corner, próxima ao Marble Arch, no agradável Hyde Park, em Londres, onde qualquer pessoa pode subir num banco ou caixote e dizer o que quiser. Vale falar mal da rainha, do papa, dos ricos ou pobres, árabes ou judeus, negros ou brancos, banqueiros, sindicalistas, políticos, ecologistas, padeiros… Ou falar bem. Ou tentar convencer, converter, alertar.

Entre os oradores que se valeram desse foro de livre expressão estiveram Karl Marx, Lenin, George Orwell, Ben Tillett, William Morris e muitos outros.

Aplausos e vaias, igualmente livres, costumam ser moderados, talvez influenciados pela atmosfera de liberdade que envolve o local. Ocasionalmente, os ânimos se exacerbam e a polícia intervém para assegurar o direito de se dizer o que pensa.

A resposta mais forte àqueles cujo discurso ofende – que recompensa também o orador pouco articulado, que não consegue vender seu peixe – é o silencioso mas expressivo descaso da platéia, como registra a foto de Pavel.

A era da Internet, junto à massificação do acesso à informação oferece poderosas ferramentas de manipulação da opinião pública, limitada somente pela oscilante ética dos grupos de poder ou influência e daqueles que a eles se opõem. A consciência de que, no mundo globalizado, a percepção coletiva é muito mais importante que a realidade dos fatos, impele esses grupos – não importa o mérito de seus objetivos – ao bombardeio intenso de notícias (reais ou fictícias, dentro ou fora de contexto) que endossem sua tese e, talvez pior, ao patrulhamento sistemático e agressivo que reprime com violência as vozes discordantes.

São os fins justificando meios, levados à última consequência. É o rolo compressor que nivela e reduz a pó a dúvida, a indignação e a discordância. É a voz de cada um de nós sendo inexoravelmente silenciada.

Freedom of SpeechO fenômeno é global, variando apenas em intensidade em função do grau de educação e maturidade de cada povo. No Brasil, assumiu proporções extremamente graves.

Veja-se, por exemplo, a delicada questão das minorias, rótulo aliás aplicado cada dia a mais grupos, cujos propósitos – legítimos ou não – transcedem o escopo deste post, mas não necessariamente a futura reflexão deste blog.

Opiniões emitidas em público, que fujam ao consenso politicamente correto, versando sobre raça, cor ou preferência sexual, ultrapassaram em vários casos os limites do patrulhamento de idéias e foram efetivamente criminalizadas em peças legislativas de inconstitucionalidade flagrante.

Se a sociedade brasileira tolerar restrições à liberdade de expressão só porque não concorda com o que alguém diz, ou porque acha o comentário absurdo, deselegante, ofensivo ou imoral, tudo que os grupos que manipulam essa sociedade em proveito próprio precisarão fazer daí em diante é moldar às suas causas a definição do que é absurdo, deselegante, ofensivo ou imoral. E aí, calem-se bocas. Quem sabe, as nossas.

Fotos: Gilberto Viciedo, “Freedom for Aung San Suu Kyi, Flickr, 9 Jun 2009, Creative Commons (BY-NC); pavel1998, “20071118 london 012, Flickr, 18 Nov 2007, Creative Commons (BY-NC-SA); Ben Beiske, “Trainride to Hokkaido 06 – Freedom of Speech, Flickr, 12 Sep 2008, Creative Commons (BY-NC-SA).