Audience in Red

O cantor silencia. A platéia irrompe em palmas. A platéia levanta. Começam os uivos e urros de “Yuuuhuuu!!!”. Teria sido uma apresentação memorável de um cantor genial? Uma surpresa gratificante tipo Susan Boyle? Uma interpretação brilhante, uma voz maravilhosa?

Embora a reação da platéia sugira isso, parece cada vez maior a desproporção entre a intensidade da ovação e a performance. Talvez seja a era do aplauso politicamente correto, que premia quem faz – ainda que faça mal feito. Ou talvez a ignorância de quem aplaude não seja capaz de distinguir a apresentação boa da sofrível. Pode ser pena da cantora com voz de cana rachada, o alívio de que o suplício chegou ao fim. Pode ser a produção levantando a placa “Aplausos”. Pode ser só pra aliviar o stress, ou parte da filosofia Made in USA cristalisada na expressão “having fun”.  Mas eu acho que é mesmo um novo reflexo condicionado, a curiosa noção de que é isso que a platéia é suposta a fazer: aplaudir.

O aplauso compulsivo vale também no esporte, mesmo nos mais nobres, em que xingar a mãe do juiz ainda não é a regra. Poucas jogadas escapam das palmas vigorosas. Um tenista de renome em Wimbledon faz quinze pontos no segundo game do primeiro set por dupla falta do adversário, e lá vem o aplauso. E pior, de uns anos pra cá, quando cessam as palmas, começa a disputa dos gritinhos de incentivo entre os torcedores: “Come on Roger!”Way to go Andy!”, até o juiz pedir silêncio, ou depois ainda.

Em resumo, as platéias perderam a medida. Ficou chato, barulhento, e o verdadeiro talento, a grande jogada, a obra prima, são recompensados de forma muito parecida com a mediocridade, a jogada ordinária, o lugar comum.

Eu acho muito chato aplaudir. Ficar de mão vermelha pra mim, só diante de uma apresentação tão fantástica que a gente só percebe que aplaudiu depois que pára. É o aplauso genuino, fruto da admiração incontida, que transborda em homenagem e justifica a dor de cada batida. É o “Bravo!” que se reservava à excelência e que hoje afaga até o corriqueiro.

Mas é assim que é. O sonegador de palmas é mal visto. As palmas frenéticas são a regra da vez.

Foto: Felipe Trucco Ahumada, “Audience in Red”, Flickr, 10 Jul 2005, © 2009 Felipe Trucco Ahumada – Foto usada com a gentil permissão do Autor – Originalmente usada sob licença Creative Commons (BY-SA)